A noite do Cenas Curtas do dia 11/09/2026 começou com um ator no centro do palco, em meia-luz, se preparando com pequenos gestos e movimentos, de quem aguardava seu momento. Enquanto todo o público acomodava-se e as falas institucionais do festival eram feitas, ali permanecia o ator, que em breve chamaríamos de... Pedro?! Paulo?! Menino?! Homem?! Acho que posso chamar de sujeito... Se assim me permite.
A minha memória se confunde com duas cenas muito fortes, uma pela imagem visual de um sujeito engasgando em sua própria baba, ou na sua própria fome, ou convulsionando em seus próprios pensamentos assujeitados por si. A outra imagem é sonora, me conta algo de uma mãe que não atende à expectativa "ancestral e institucional" do que é maternar. O relato apresentado diz de uma mãe que decidiu não responder às expectativas de ser a grande Maria, a grande mulher de braços abertos ao seu filho.
A primeira descrição ganha agora mais força porque o engasgo, o líquido branco que vaza da boca, textura de leite, o sujeito agora já não é mais agente de seu próprio refluxo... A fome é um instinto que pode nos levar à morte, a traumas que, se o meio, ou o grande Outro não nos cuidar, podemos pôr fim à nossa própria vida.
Em seguida, conhecemos o sujeito da cena, que em um texto "improvisado" nos conta seus dilemas. Explico-me sobre o sujeito do início da cena. Durante todo seu depoimento bem-humorado ele nos apresenta questões que margeiam um indivíduo de nome, classe ou até mesmo identidade, os nós ali são de um eu em formação que não se analisa, mas sim balbucia à margem do ser. Quase como quem vai a um analista e não fala sobre a questão em si, mas aponta a sua performance como o seu ser. Neste momento o espectador perde um ponto sobre: para onde vamos com essa cena?
A cena então nos responde com uma apresentação musical do sujeito com uma máscara de porco, muito impactante para quem assiste, e novamente retornamos para a ladainha do ser assujeitado, que faz o público novamente entrar em interrogação. Até que o sujeito decide, por assim dizer, ler um texto não decorado no microfone, que revela a sua condição de ser vivo. Ser e conviver com o seu grande Outro, neste caso, sua mãe. Provocando uma reflexão do lugar de quem é filho, como se pode ser mãe, da grande separação de um corpo em dois, dos cuidados relativos e do abandono de uma instituição intuída que pode vir a falir, falhar, ruir. Explico-me com uma fala do texto: "A mãe é digna de pena. Quanto mais eu erro, mais se ergue um monumento sobre ela".
Por fim, o que desejo provocar nesse texto é a pergunta para quem faz: quais caminhos o ator, criador, provocador, performer pode escolher para criar uma obra artística que atravesse o público, como quem assiste um alpinista sem nenhum equipamento de segurança?
Feiúra Comovente - Foto: Guto Muniz
Cecília
O significado do nome dado à segunda cena da noite é: Cega ou aquela que vê além do óbvio. Acredito que os dois sentidos revelam um pouco do que eu gostaria de compartilhar. Quando penso em uma pessoa cega ou com baixa visão, penso em alguém que não tem uma habilidade específica humana, mas tem outras tantas que se aguçam a fim de ampliar a experiência do corpo em uma sociedade muito visual. Nisto, queria-me ater à seguinte questão: será que a cena não está focada em um tipo de forma de comunicação deixando de lado outros sentidos? Explico-me: a obra faz uso de alguns recursos contemporâneos que por hora ficam sem sentido dentro da cena, como o figurino, cenário, recursos estilísticos da estética contemporânea. Quando vejo esses elementos eles parecem entrar como forma, não como necessidade ou proposta radical de comunicação.
O que comento anteriormente se contrapõe com o segundo significado de Cecília, "aquela que vê além do óbvio". Uma cena que tem como proposta e argumento duas mulheres negras falando sobre o encontro que parecia impossível, a dança da saudade, a música que toca novamente. É por demais potente, relevante, transgressor. Aqui Cecília apresenta-se, chega na cena contemporânea de forma genuína. Quando a lanterna aparece, o plástico recobre, a fala sai e reverbera o corpo. Cecília é, não mais tenta ser.
Quando digo sobre esses dois sentidos, falo sobre a experiência de criar, toda cena é um fragmento, um pedaço de algo, um por vir. Cecília me parece estar por vir, e a melhor parte é saber que eu poderia ainda reencontrá-la de outra forma, assim espero. Porque ninguém entra no mesmo rio duas vezes, ninguém é a mesma pessoa depois de um encontro.
Cecília - Foto: Guto Muniz
Macho, Logo Falho
Descartes escreveu "Penso, logo existo", o que ele talvez não imaginou é que ser não é da ordem lógica, cadenciada, organizada e normatizada. Descartes pensava em um logos culminante de uma ação x reação, em uma linha, ou melhor, dois pontos estáveis. Macho, logo falho, é o ser em sua existência mais ímpar em sociedade. Ser macho é único, quando se falha, transmuta em machialidades falhantes, desfalidas, desfaladas. Falhar é o fracasso do logos, que nos apresenta novas possibilidades, como por exemplo ser macho.
A penúltima cena constrói uma experiência cabareteira, como se denominam, muito despretensiosa e rítmica, banhada de deboche, crítica, manifesto e cores. A pluralidade, a multidão de indivíduos, é o que ressalta no olhar do público em um texto afiado e orquestrado por uma coreografia pulsante, que em alguns momentos perde-se pela profusão de propostas de um trabalho que tem muito a trilhar.
Ouvimos na cena o "Número" que aparece em um off com um "deus ex machina" que pode ser melhor executado. A dramaturgia dá truques, mecanismos e efeitos que geram a todo momento uma crítica a essa "identidade" macho. Que mais é machucado do que CHOCA. A cena é uma denúncia, é um manifesto. É refresco dos tempos do Corredor da Leste que Marina Viana pesquisa. Um teatro de linguagem comum, que alça uma prática de libertação de corpo e de uma sociedade heteronormativa.
Macho, Logo Falho - Foto: Guto Muniz
In-Morada
Venho escrever esse texto com receio, mas com o desejo de trocar e criar junto. Teatro é do coletivo. Quando vejo a sinopse no programa do Cenas Curtas, sinto desejo do que vou assistir, o argumento proposto parece-me saga, político, ousado e muito bem posicionado no contexto das Minas Gerais e até mesmo da curadoria do festival. Relembro a autora Neide das Graças em suas falas sobre "imagens no vazio", imagens que podem ser produzidas no corpo a partir da literatura.
Dito isso, venho aqui provocar, não no sentido de diminuir, de fazer diferente, mas sim de ser uma espectadora que cria com a cena. Meu desejo é de pensar junto. Faço meus enlaces que ficaram ressoando da cena.
A plasticidade relativa à cenografia e à luz é muito perspicaz, pois nos remete a signos de fácil leitura, nos adentra à obra e à sua proposta. Porém estes signos, em meio à dramaturgia, se perdem, pois a interpretação fica professoral, pouco dinâmica. O que nos leva a ritmo e estética dramática que pouco contribuem com a obra.
A sagacidade da aproximação de Ramos com o contexto da barragem perde-se em uma tentativa de abarcar tudo em pouco tempo. Relembro: uma cena é um fragmento, não tem o compromisso com o todo.
Por fim, ou pelo meio... Uma crítica não é nada mais que um olhar mais atento... Estas palavras são imagens no vazio que desejam provocar mais teatro, que desaguem, que a família de retirantes possa dizer mais, dizer além, dizer antes que a barragem chegue até elas.
In-Morada - Foto: Guto Muniz
NO CALOR DA NOITE - DIA 05 - 11/09/2026
Por Vina Amorim
Feiura Comovente
A noite do Cenas Curtas do dia 11/09/2026 começou com um ator no centro do palco, em meia-luz, se preparando com pequenos gestos e movimentos, de quem aguardava seu momento. Enquanto todo o público acomodava-se e as falas institucionais do festival eram feitas, ali permanecia o ator, que em breve chamaríamos de... Pedro?! Paulo?! Menino?! Homem?! Acho que posso chamar de sujeito... Se assim me permite.
A minha memória se confunde com duas cenas muito fortes, uma pela imagem visual de um sujeito engasgando em sua própria baba, ou na sua própria fome, ou convulsionando em seus próprios pensamentos assujeitados por si. A outra imagem é sonora, me conta algo de uma mãe que não atende à expectativa "ancestral e institucional" do que é maternar. O relato apresentado diz de uma mãe que decidiu não responder às expectativas de ser a grande Maria, a grande mulher de braços abertos ao seu filho.
A primeira descrição ganha agora mais força porque o engasgo, o líquido branco que vaza da boca, textura de leite, o sujeito agora já não é mais agente de seu próprio refluxo... A fome é um instinto que pode nos levar à morte, a traumas que, se o meio, ou o grande Outro não nos cuidar, podemos pôr fim à nossa própria vida.
Em seguida, conhecemos o sujeito da cena, que em um texto "improvisado" nos conta seus dilemas. Explico-me sobre o sujeito do início da cena. Durante todo seu depoimento bem-humorado ele nos apresenta questões que margeiam um indivíduo de nome, classe ou até mesmo identidade, os nós ali são de um eu em formação que não se analisa, mas sim balbucia à margem do ser. Quase como quem vai a um analista e não fala sobre a questão em si, mas aponta a sua performance como o seu ser. Neste momento o espectador perde um ponto sobre: para onde vamos com essa cena?
A cena então nos responde com uma apresentação musical do sujeito com uma máscara de porco, muito impactante para quem assiste, e novamente retornamos para a ladainha do ser assujeitado, que faz o público novamente entrar em interrogação. Até que o sujeito decide, por assim dizer, ler um texto não decorado no microfone, que revela a sua condição de ser vivo. Ser e conviver com o seu grande Outro, neste caso, sua mãe. Provocando uma reflexão do lugar de quem é filho, como se pode ser mãe, da grande separação de um corpo em dois, dos cuidados relativos e do abandono de uma instituição intuída que pode vir a falir, falhar, ruir. Explico-me com uma fala do texto: "A mãe é digna de pena. Quanto mais eu erro, mais se ergue um monumento sobre ela".
Por fim, o que desejo provocar nesse texto é a pergunta para quem faz: quais caminhos o ator, criador, provocador, performer pode escolher para criar uma obra artística que atravesse o público, como quem assiste um alpinista sem nenhum equipamento de segurança?
Feiúra Comovente - Foto: Guto Muniz
Cecília
O significado do nome dado à segunda cena da noite é: Cega ou aquela que vê além do óbvio. Acredito que os dois sentidos revelam um pouco do que eu gostaria de compartilhar. Quando penso em uma pessoa cega ou com baixa visão, penso em alguém que não tem uma habilidade específica humana, mas tem outras tantas que se aguçam a fim de ampliar a experiência do corpo em uma sociedade muito visual. Nisto, queria-me ater à seguinte questão: será que a cena não está focada em um tipo de forma de comunicação deixando de lado outros sentidos? Explico-me: a obra faz uso de alguns recursos contemporâneos que por hora ficam sem sentido dentro da cena, como o figurino, cenário, recursos estilísticos da estética contemporânea. Quando vejo esses elementos eles parecem entrar como forma, não como necessidade ou proposta radical de comunicação.
O que comento anteriormente se contrapõe com o segundo significado de Cecília, "aquela que vê além do óbvio". Uma cena que tem como proposta e argumento duas mulheres negras falando sobre o encontro que parecia impossível, a dança da saudade, a música que toca novamente. É por demais potente, relevante, transgressor. Aqui Cecília apresenta-se, chega na cena contemporânea de forma genuína. Quando a lanterna aparece, o plástico recobre, a fala sai e reverbera o corpo. Cecília é, não mais tenta ser.
Quando digo sobre esses dois sentidos, falo sobre a experiência de criar, toda cena é um fragmento, um pedaço de algo, um por vir. Cecília me parece estar por vir, e a melhor parte é saber que eu poderia ainda reencontrá-la de outra forma, assim espero. Porque ninguém entra no mesmo rio duas vezes, ninguém é a mesma pessoa depois de um encontro.
Cecília - Foto: Guto Muniz
Macho, Logo Falho
Descartes escreveu "Penso, logo existo", o que ele talvez não imaginou é que ser não é da ordem lógica, cadenciada, organizada e normatizada. Descartes pensava em um logos culminante de uma ação x reação, em uma linha, ou melhor, dois pontos estáveis. Macho, logo falho, é o ser em sua existência mais ímpar em sociedade. Ser macho é único, quando se falha, transmuta em machialidades falhantes, desfalidas, desfaladas. Falhar é o fracasso do logos, que nos apresenta novas possibilidades, como por exemplo ser macho.
A penúltima cena constrói uma experiência cabareteira, como se denominam, muito despretensiosa e rítmica, banhada de deboche, crítica, manifesto e cores. A pluralidade, a multidão de indivíduos, é o que ressalta no olhar do público em um texto afiado e orquestrado por uma coreografia pulsante, que em alguns momentos perde-se pela profusão de propostas de um trabalho que tem muito a trilhar.
Ouvimos na cena o "Número" que aparece em um off com um "deus ex machina" que pode ser melhor executado. A dramaturgia dá truques, mecanismos e efeitos que geram a todo momento uma crítica a essa "identidade" macho. Que mais é machucado do que CHOCA. A cena é uma denúncia, é um manifesto. É refresco dos tempos do Corredor da Leste que Marina Viana pesquisa. Um teatro de linguagem comum, que alça uma prática de libertação de corpo e de uma sociedade heteronormativa.
Macho, Logo Falho - Foto: Guto Muniz
In-Morada
Venho escrever esse texto com receio, mas com o desejo de trocar e criar junto. Teatro é do coletivo. Quando vejo a sinopse no programa do Cenas Curtas, sinto desejo do que vou assistir, o argumento proposto parece-me saga, político, ousado e muito bem posicionado no contexto das Minas Gerais e até mesmo da curadoria do festival. Relembro a autora Neide das Graças em suas falas sobre "imagens no vazio", imagens que podem ser produzidas no corpo a partir da literatura.
Dito isso, venho aqui provocar, não no sentido de diminuir, de fazer diferente, mas sim de ser uma espectadora que cria com a cena. Meu desejo é de pensar junto. Faço meus enlaces que ficaram ressoando da cena.
A plasticidade relativa à cenografia e à luz é muito perspicaz, pois nos remete a signos de fácil leitura, nos adentra à obra e à sua proposta. Porém estes signos, em meio à dramaturgia, se perdem, pois a interpretação fica professoral, pouco dinâmica. O que nos leva a ritmo e estética dramática que pouco contribuem com a obra.
A sagacidade da aproximação de Ramos com o contexto da barragem perde-se em uma tentativa de abarcar tudo em pouco tempo. Relembro: uma cena é um fragmento, não tem o compromisso com o todo.
Por fim, ou pelo meio... Uma crítica não é nada mais que um olhar mais atento... Estas palavras são imagens no vazio que desejam provocar mais teatro, que desaguem, que a família de retirantes possa dizer mais, dizer além, dizer antes que a barragem chegue até elas.