NO CALOR DA NOITE - DIA 06 - 12/09/2026: Uma Crítica em Ponto de Criação

Por Vina Amorim

Data: 13/09/2026

Horário: 02:00

RotA 

Corpos atravessam a cena 

mergulham

saltam 

recuam 

acrobacias 

musica 

baixo

guitarra

bateria

cacoetes

paete

preto 

preta

choche

trama

foco

mao no pe

pe na mao 

cabeca no pe 

pe na cabeca 

foco

palavra 

palavra 

palavra 

palabra (manoel de barros)

Palavras em ponto de p 

arthur bispo do rosario 

afro futurismo 

dreads 

trancas 

back

gingado

fenda

como chama esse movimento que nao lembre uma colonizadora 

tons 

pes 

areias

reflexo

cardume

busto

externo

vozes 

aremediações 

uma critica em palavras, o resto nos escrevemos no encontro. 

rotA - Registro: Guto Muniz

Data: 13/09/2026

Horario: 03:00

Puro teatro 

Assisti a cena sentada ao lado de Guilherme Morais, que me falou um tanto de trem, um desses tantos trens foi: Nelson? Será que ainda precisamos montar Nelson? 

Eu antes de ver diria que não, agora vendo Puro Teatro, diria que sim. 

Amei ver Nelson, amei ver uma atriz em cena, o puro suco da atriz. Amei ver um amigo tornar-se  ator. Amei ver o tiro, o recurso. Uma crítica que escuta. Uma crítica de reverberação.  Revirar o mundo. Revirar os papéis, Revirar. To escrevendo para ver se essa potência transmuta em outra coisa. 

cacho 

trend 

risada

amor

dengo

saco

bunda 

pau 

cheiro 

fofura

imaginário possivel 

sessao da tarde 

rebulico 

remelexo

requebrar

revirar

retomar

recriar

ar

um respiro 

recurso 

jardim delus 

Megalomania, 

desejo

dança 

dança contemporânea 

rua 

palco 

tapete

ball

gesto

jardim 

imagens internas 

imagem externas 

criadora e criatura 

som baixo 

figurino 

ninguem ganha 

ninguem se mexe 

historia 

fundamento 

hause 

casa

palacio

travesti a si

aphrodite

milo

ser 

coragem 

impetuo 

forca 

luta 

fofoca 

sombra

pedacos 

vergonhas

desejos 

Data: 13/09/2026

Horário: 06:00

Como resumir em palavras a última noite do Cenas sem usar a palavra CUNT OU GAG. Mona, estou  desde que saí desse acontecimento arrebatada, GAG DE LA GAG… Esse texto sai como quem só precisa dizer o que foi ontem e seus arrebatamentos. Talvez no fim eu consiga separar um pouco do que foi cada cena em si, mas a princípio ela se tornou um bloco, uma mistura. Então o que eu posso fazer é narrar os fatos,  a fim de produzir um registro. Fico me perguntando: é possível escrever um texto depois de só pedir para ser eu? Depois tiro? Ficar apaixonada e sofrer uma desilusão amorosa e por fim viver uma ball, ao lado da pessoa que fez a primeira Ball em Belo Horizonte? 

Fico Gag novamente. Estou eu numa Ball mental no corpo de qual frase formular. 

Ontem cheguei na fila para entrar na última noite do festival e calhou de estar ao lado de Guilherme Moraes, Fundador da Dengue e também realizador da primeira Ball em Belo Horizonte. Se você não o conhece? Conheça! Peça rara, única, de falas precisas, que farão partes desse texto. Hoje serviremos fofocas também. Quando sentei ao lado do Guilherme já me contou sobre os dias que eu não havia visto das cenas. Aquilo já foi criando um prazer diferente de estar ali. Chico (gestor do Galpão Cine Horto) fez sua fala rotineira sobre a importância do voto, das nossas escolhas nas urnas, do momento difícil que estamos vivendo atualmente no nosso país e que estamos à beira de um estado de exceção nessas eleições que nos sucedem.  Já que estou aqui criando um arquivo, quero deixar registrado que não há possibilidade de um voto que não seja em políticos de pensamentos progressistas e que pensem na cultura, nos direitos humanos, nos povos originários, na pluralidade de identidades, classes, nas matas, nos rios e no povo.

Dito isso como começamos a primeira cena: 

Data: 13/09/2026

Horário: 12:00

RotA

Começo a assistir a cena e já fico deslumbrada pelos músicos e a composição sonora que cria uma paisagem muito ritmada e envolvente em um drama in bass. As pessoas atuantes começam a correr em diagonais, misturando saltos e acrobacias. Este momento é quebrado por uma atriz em um foco central que faz um imagem corporal que remete a um movimento da capoeira, ali ela inaugura a fala, que desloca o pé e a cabeça de um sentido colonial, essas partes já não estão nos lugares que convencionamos.

Entramos assim, em uma encenação fragmentada e composta por um corpo palavra. A palavra está no centro do corpo, ela recria formas e imagens internas que removem o mais profundo da pele, dançam as entranhas e a sutileza do eu.  As atrizes e atores trazem alguns elementos de uma estética afro futurista, como um boné e um óculos. Que de início parecem ser uma certa firula, mas que no fim do experimento descobriremos que não. 

O acontecimento teatral/dançante, um tom manifesto, um desejo de liberdade,  Esta afirmação só faz-se entendivel se ponderarmos  que são corpos negros, que historicamente foram cerceados e violentados por uma logica colonial, capitalista e moderna. Chego ao ponto de pensar: Que liberar essa que elas que esses indivíduos, sujeitos, de nome, história, lugares estão querendo falar? 

Um momento ápice de RotA, é quando próximo a boca de cena, um corredor de luz recorta um chão que está coberto de terra, e uma dança, solta e pontual é executada. Que rapidamente contrapõe-se no mesmo lugar do palco, com uma montagem de corpos enfileirados e somente do busto para cima é iluminado, somos impactados por uma dança da rostialidade, que é um tanto abstrata, surreal e ao mesmo orgânica,

Por fim, a última imagem me responde as minhas inquietações: uma cena com vários elementos contemporâneos, com a palavra corpo, vozes manifestos, corpos orgânicos tentando produzir uma estética inorgânica em alguns momentos. É rebatida por uma imagem de jovens negros, sentados no chao rindo, e dizendo que eles só gostariam de ser, sem nenhuma  ou qualquer expectaticva de uma sociedade identitaria e normatival, que cobra muitas vez da negritude uma forma e um discurso previo do que deve vir a ser uma estica da negrura. A risada é o alívio e a lembrança, de que nem todo mundo pode ser simplesmente como se é. 

Puro Teatro - Registro: Guto Muniz

Puro teatro 

O que dizer depois de ver o puro teatro, não que as outras cenas não sejam teatro. Mas aqui encontro um modo de fazer teatro, a partir de uma textos clássicos e atuais brasileiros sendo feito de forma contemporânea, utilizando elementos como quebra da quarta parede, mecanismos cômicos, metalinguagem, repetição, desenhos de cenas fragmentados, o eu como fonte de criação e a auto ficção (em um limite sutil). O puro teatro estava ali, na sua critica feminista, de quem da o tiro do Beijo no asfalto, das relações homo e hetorafetivas em um contexto atual, orquestrada por uma atuação e dramaturgia engajada com a criação de uma suspenção ficcional. 

O puro teatro talvez seja criar uma obra que te provoque a saber o limite se aquilo é ou não, se uma arma está em cena, mesmo que fake dá o tiro de verdade. Que o sentimento é vivido dentro dos corpos atuantes. Que ali a vida só acontece no encontro apaixonado entre cena e espectador. 

Cacho 

Eu poderia nomear esse texto como “Tela quente queer contemporânea”. Se você me perguntasse o porquê, eu diria: É um espetáculo de trend, de hashtag, um cena de imaginário queer, possível, gostoso, que eu passaria uma pipoca e assistiria com flores na barriga e com desejo viver uma paixão. 

A cena começa com uma despretensão tão precisa, um cenário que nos remete a um bar, desses com pouca ventilação, com gordura no ar, que faz uma comida de estufa gostosa, que te dá vontade de tomar um gole a mais de cerveja. Dentro desse espaço entra o primeiro ator, que se abre sobre suas paixões e seus modos de conquista e suas relações passadas. Mas ele nos lembra que estava ali para contar de um amor específico. 

A amada em questão surge na plateia, cantarolando uma música que dá mais gás ao tom comigo e leve à cena que se propõe. Ela senta na mesa do bar. E ali o apaixona narra seu arco dramático de um romance que sinto em contar que não terminou em feliz para sempre.

 O que me salta aos olhos é como a dramaturgia utiliza de palavras não habituais em uma conversa “formal” para nos mostrar a paixão sendo construída e desconstruída. Como por exemplo “pororoca faniquito e decantar” e de como sem saber o significado a personagem  entende o sentido, o  significante. Explico-me: que o signo linguístico tem duas faces da mesma moeda. O som que essas palavras produzem não precisam de tradução e é que isso o encanta, nos coloca em um enigma. 

Por fim ou pelo meio, é nessa brincadeira de significante e significado que nós nos encantamos pela cena, porque elas produzem um sentido enigmático que diz do sujeito, que produz afeto, que em uma sociedade romântica horas podemos chamar de paixão.

Cacho - Registro: Guto Muniz

Jadim delus 

É uma ode à diversidade, a história feita por pessoas queer e negras. Uma ode a história da Ball de Belo Horizonte. Ode a festa, o lugar onde ensaiamos mundos. Antes mesmo da cena começar a expectativa foi sendo criada a partir dos técnicos montando a cenário como se para um show de uma diva pop, luzes, laser, globo de espelho, cenografia, tudo pronto para uma apresentação digna de turnê mundial. A house  of Juice Couture entra, e monta uma imagem de pedras recobertas por musgos, que secretamente transmutam em uma dança vegetal que se desloca no tempo de um jardim que ainda não encontrou-se com a humanidade. As figuras são despertadas por energias, furacões, encantados que eu tenho o prazer de chamar Gana e Eli.

 Luz abre, plateia acesa e estamos dentro do palco, em uma ball, que faz referência, a primeira Ball feita em Belo Horizonte, realizada neste mesmo espaço e evento a 10 anos atrás. GANA nos explica um pouco de como a bal funciona, faz uma mediação do jogo, dá batalha no caso. Neste ponto, a ball transborda  o teatro, a linguagem torna-se democrática e acessivel. House of Juyce entende que a ball tem linguagem para a criação de uma experiência cênica que pode ser estetizada dentro do edifício teatro. Sobre a batalha, não há vencedores, pois somos provocades a votar e o resultado fica no escuro

O breu da vez para uma figura mítica, erótica, lendária, sensual, afroditica, que exala fluidos que alimentam esse jardim, agora de vegetação trepadeira, com visgo,  oleosa, com orvalho em um clima tropical. As corporeidades investem em curva, cheiro, saliva e toque, para dar fim a uma imagem digna de permanecer e perdurar no corpo de quem assiste. Para quem sabe, produzirmos uma sociedade racionalizante que respeite a diversidade, que se engaje na pluralidade, na diferença, no desejo de produzir um estado de bem estar e não exceção. 

Jardim Delus - Registro: Guto Muniz

 

NO CALOR DA NOITE - DIA 06 - 12/09/2026: Uma Crítica em Ponto de Criação

Por Vina Amorim

Data: 13/09/2026

Horário: 02:00

RotA 

Corpos atravessam a cena 

mergulham

saltam 

recuam 

acrobacias 

musica 

baixo

guitarra

bateria

cacoetes

paete

preto 

preta

choche

trama

foco

mao no pe

pe na mao 

cabeca no pe 

pe na cabeca 

foco

palavra 

palavra 

palavra 

palabra (manoel de barros)

Palavras em ponto de p 

arthur bispo do rosario 

afro futurismo 

dreads 

trancas 

back

gingado

fenda

como chama esse movimento que nao lembre uma colonizadora 

tons 

pes 

areias

reflexo

cardume

busto

externo

vozes 

aremediações 

uma critica em palavras, o resto nos escrevemos no encontro. 

rotA - Registro: Guto Muniz

Data: 13/09/2026

Horario: 03:00

Puro teatro 

Assisti a cena sentada ao lado de Guilherme Morais, que me falou um tanto de trem, um desses tantos trens foi: Nelson? Será que ainda precisamos montar Nelson? 

Eu antes de ver diria que não, agora vendo Puro Teatro, diria que sim. 

Amei ver Nelson, amei ver uma atriz em cena, o puro suco da atriz. Amei ver um amigo tornar-se  ator. Amei ver o tiro, o recurso. Uma crítica que escuta. Uma crítica de reverberação.  Revirar o mundo. Revirar os papéis, Revirar. To escrevendo para ver se essa potência transmuta em outra coisa. 

cacho 

trend 

risada

amor

dengo

saco

bunda 

pau 

cheiro 

fofura

imaginário possivel 

sessao da tarde 

rebulico 

remelexo

requebrar

revirar

retomar

recriar

ar

um respiro 

recurso 

jardim delus 

Megalomania, 

desejo

dança 

dança contemporânea 

rua 

palco 

tapete

ball

gesto

jardim 

imagens internas 

imagem externas 

criadora e criatura 

som baixo 

figurino 

ninguem ganha 

ninguem se mexe 

historia 

fundamento 

hause 

casa

palacio

travesti a si

aphrodite

milo

ser 

coragem 

impetuo 

forca 

luta 

fofoca 

sombra

pedacos 

vergonhas

desejos 

Data: 13/09/2026

Horário: 06:00

Como resumir em palavras a última noite do Cenas sem usar a palavra CUNT OU GAG. Mona, estou  desde que saí desse acontecimento arrebatada, GAG DE LA GAG… Esse texto sai como quem só precisa dizer o que foi ontem e seus arrebatamentos. Talvez no fim eu consiga separar um pouco do que foi cada cena em si, mas a princípio ela se tornou um bloco, uma mistura. Então o que eu posso fazer é narrar os fatos,  a fim de produzir um registro. Fico me perguntando: é possível escrever um texto depois de só pedir para ser eu? Depois tiro? Ficar apaixonada e sofrer uma desilusão amorosa e por fim viver uma ball, ao lado da pessoa que fez a primeira Ball em Belo Horizonte? 

Fico Gag novamente. Estou eu numa Ball mental no corpo de qual frase formular. 

Ontem cheguei na fila para entrar na última noite do festival e calhou de estar ao lado de Guilherme Moraes, Fundador da Dengue e também realizador da primeira Ball em Belo Horizonte. Se você não o conhece? Conheça! Peça rara, única, de falas precisas, que farão partes desse texto. Hoje serviremos fofocas também. Quando sentei ao lado do Guilherme já me contou sobre os dias que eu não havia visto das cenas. Aquilo já foi criando um prazer diferente de estar ali. Chico (gestor do Galpão Cine Horto) fez sua fala rotineira sobre a importância do voto, das nossas escolhas nas urnas, do momento difícil que estamos vivendo atualmente no nosso país e que estamos à beira de um estado de exceção nessas eleições que nos sucedem.  Já que estou aqui criando um arquivo, quero deixar registrado que não há possibilidade de um voto que não seja em políticos de pensamentos progressistas e que pensem na cultura, nos direitos humanos, nos povos originários, na pluralidade de identidades, classes, nas matas, nos rios e no povo.

Dito isso como começamos a primeira cena: 

Data: 13/09/2026

Horário: 12:00

RotA

Começo a assistir a cena e já fico deslumbrada pelos músicos e a composição sonora que cria uma paisagem muito ritmada e envolvente em um drama in bass. As pessoas atuantes começam a correr em diagonais, misturando saltos e acrobacias. Este momento é quebrado por uma atriz em um foco central que faz um imagem corporal que remete a um movimento da capoeira, ali ela inaugura a fala, que desloca o pé e a cabeça de um sentido colonial, essas partes já não estão nos lugares que convencionamos.

Entramos assim, em uma encenação fragmentada e composta por um corpo palavra. A palavra está no centro do corpo, ela recria formas e imagens internas que removem o mais profundo da pele, dançam as entranhas e a sutileza do eu.  As atrizes e atores trazem alguns elementos de uma estética afro futurista, como um boné e um óculos. Que de início parecem ser uma certa firula, mas que no fim do experimento descobriremos que não. 

O acontecimento teatral/dançante, um tom manifesto, um desejo de liberdade,  Esta afirmação só faz-se entendivel se ponderarmos  que são corpos negros, que historicamente foram cerceados e violentados por uma logica colonial, capitalista e moderna. Chego ao ponto de pensar: Que liberar essa que elas que esses indivíduos, sujeitos, de nome, história, lugares estão querendo falar? 

Um momento ápice de RotA, é quando próximo a boca de cena, um corredor de luz recorta um chão que está coberto de terra, e uma dança, solta e pontual é executada. Que rapidamente contrapõe-se no mesmo lugar do palco, com uma montagem de corpos enfileirados e somente do busto para cima é iluminado, somos impactados por uma dança da rostialidade, que é um tanto abstrata, surreal e ao mesmo orgânica,

Por fim, a última imagem me responde as minhas inquietações: uma cena com vários elementos contemporâneos, com a palavra corpo, vozes manifestos, corpos orgânicos tentando produzir uma estética inorgânica em alguns momentos. É rebatida por uma imagem de jovens negros, sentados no chao rindo, e dizendo que eles só gostariam de ser, sem nenhuma  ou qualquer expectaticva de uma sociedade identitaria e normatival, que cobra muitas vez da negritude uma forma e um discurso previo do que deve vir a ser uma estica da negrura. A risada é o alívio e a lembrança, de que nem todo mundo pode ser simplesmente como se é. 

Puro Teatro - Registro: Guto Muniz

Puro teatro 

O que dizer depois de ver o puro teatro, não que as outras cenas não sejam teatro. Mas aqui encontro um modo de fazer teatro, a partir de uma textos clássicos e atuais brasileiros sendo feito de forma contemporânea, utilizando elementos como quebra da quarta parede, mecanismos cômicos, metalinguagem, repetição, desenhos de cenas fragmentados, o eu como fonte de criação e a auto ficção (em um limite sutil). O puro teatro estava ali, na sua critica feminista, de quem da o tiro do Beijo no asfalto, das relações homo e hetorafetivas em um contexto atual, orquestrada por uma atuação e dramaturgia engajada com a criação de uma suspenção ficcional. 

O puro teatro talvez seja criar uma obra que te provoque a saber o limite se aquilo é ou não, se uma arma está em cena, mesmo que fake dá o tiro de verdade. Que o sentimento é vivido dentro dos corpos atuantes. Que ali a vida só acontece no encontro apaixonado entre cena e espectador. 

Cacho 

Eu poderia nomear esse texto como “Tela quente queer contemporânea”. Se você me perguntasse o porquê, eu diria: É um espetáculo de trend, de hashtag, um cena de imaginário queer, possível, gostoso, que eu passaria uma pipoca e assistiria com flores na barriga e com desejo viver uma paixão. 

A cena começa com uma despretensão tão precisa, um cenário que nos remete a um bar, desses com pouca ventilação, com gordura no ar, que faz uma comida de estufa gostosa, que te dá vontade de tomar um gole a mais de cerveja. Dentro desse espaço entra o primeiro ator, que se abre sobre suas paixões e seus modos de conquista e suas relações passadas. Mas ele nos lembra que estava ali para contar de um amor específico. 

A amada em questão surge na plateia, cantarolando uma música que dá mais gás ao tom comigo e leve à cena que se propõe. Ela senta na mesa do bar. E ali o apaixona narra seu arco dramático de um romance que sinto em contar que não terminou em feliz para sempre.

 O que me salta aos olhos é como a dramaturgia utiliza de palavras não habituais em uma conversa “formal” para nos mostrar a paixão sendo construída e desconstruída. Como por exemplo “pororoca faniquito e decantar” e de como sem saber o significado a personagem  entende o sentido, o  significante. Explico-me: que o signo linguístico tem duas faces da mesma moeda. O som que essas palavras produzem não precisam de tradução e é que isso o encanta, nos coloca em um enigma. 

Por fim ou pelo meio, é nessa brincadeira de significante e significado que nós nos encantamos pela cena, porque elas produzem um sentido enigmático que diz do sujeito, que produz afeto, que em uma sociedade romântica horas podemos chamar de paixão.

Cacho - Registro: Guto Muniz

Jadim delus 

É uma ode à diversidade, a história feita por pessoas queer e negras. Uma ode a história da Ball de Belo Horizonte. Ode a festa, o lugar onde ensaiamos mundos. Antes mesmo da cena começar a expectativa foi sendo criada a partir dos técnicos montando a cenário como se para um show de uma diva pop, luzes, laser, globo de espelho, cenografia, tudo pronto para uma apresentação digna de turnê mundial. A house  of Juice Couture entra, e monta uma imagem de pedras recobertas por musgos, que secretamente transmutam em uma dança vegetal que se desloca no tempo de um jardim que ainda não encontrou-se com a humanidade. As figuras são despertadas por energias, furacões, encantados que eu tenho o prazer de chamar Gana e Eli.

 Luz abre, plateia acesa e estamos dentro do palco, em uma ball, que faz referência, a primeira Ball feita em Belo Horizonte, realizada neste mesmo espaço e evento a 10 anos atrás. GANA nos explica um pouco de como a bal funciona, faz uma mediação do jogo, dá batalha no caso. Neste ponto, a ball transborda  o teatro, a linguagem torna-se democrática e acessivel. House of Juyce entende que a ball tem linguagem para a criação de uma experiência cênica que pode ser estetizada dentro do edifício teatro. Sobre a batalha, não há vencedores, pois somos provocades a votar e o resultado fica no escuro

O breu da vez para uma figura mítica, erótica, lendária, sensual, afroditica, que exala fluidos que alimentam esse jardim, agora de vegetação trepadeira, com visgo,  oleosa, com orvalho em um clima tropical. As corporeidades investem em curva, cheiro, saliva e toque, para dar fim a uma imagem digna de permanecer e perdurar no corpo de quem assiste. Para quem sabe, produzirmos uma sociedade racionalizante que respeite a diversidade, que se engaje na pluralidade, na diferença, no desejo de produzir um estado de bem estar e não exceção. 

Jardim Delus - Registro: Guto Muniz