NO CALOR DA NOITE - DIA 01 - 07/09/2026

Por Soraya Belusi

Há algo muito particular no clima do Festival Cenas Curtas. Em sua 27ª edição, ele já é uma espécie de patrimônio da vida teatral de Belo Horizonte, não apenas por sua longevidade, mas pela relação que construiu com a cidade. Há uma torcida na plateia, uma disposição para o encontro e para o risco, um desejo genuíno de que a cena aconteça. E isso ganha um significado ainda mais especial na primeira noite, dedicada às escolas de formação teatral de Belo Horizonte, com trabalhos de alunos do Centro Interescolar de Cultura Arte Linguagens e Tecnologias - Cicalt, Teatro Universitário da UFMG, Cefart - Fundação Clóvis Salgado e Escola de Teatro PUC Minas. De certa forma, era a cidade olhando para quem está aprendendo, experimentando e começando a construir os seus caminhos teatrais. E, diante de trabalhos tão distintos, uma questão parecia atravessar a noite e meu olhar sobre eles: que mundo esses jovens artistas estão enxergando e escolhendo colocar em cena?

Curiosamente, as quatro respostas parecem atravessadas por diferentes formas de violência. Não necessariamente a violência explícita, física, mas aquela que se infiltra no cotidiano, determina relações, condiciona comportamentos e, em alguma medida, retira do indivíduo o domínio sobre a própria existência. É a violência do trabalho que consome a vida; da dominação que procura apagar a identidade do outro; da ação repetida sem consciência de suas razões; e, por fim, de uma existência confrontada com sua própria falta de sentido. E é significativo que essas questões não sejam materializadas apenas nos temas escolhidos, mas sejam construídas também nos corpos e nas relações entre os atores.

Em “Queimão no Corredor 7”, apresentada pelos alunos do Cicalt, a morte está anunciada desde o início: um trabalhador morrerá durante aquele expediente. Mas aquilo que inicialmente parece individual vai se espalhando pela cena. Acompanhamos a fiscal, o segurança, a funcionária do caixa, o estoque, o herdeiro do negócio, aquele que se alia ao patrão, aquele que se revolta, mas não consegue sair. E, aos poucos, percebemos que, embora apenas uma morte tenha sido anunciada, todos estão morrendo um pouco. “É um mal de família morrer de tanto trabalhar”, diz um dos personagens, numa frase que transforma o trabalho em herança e destino.

E a própria encenação ajuda a construir essa ideia. Há muita movimentação, sincronia e um bom entrosamento entre os atores, como se aqueles corpos compusessem juntos uma grande engrenagem. É na atuação do coletivo que se constitui a força da cena; a dramaturgia potencializa esses espaços para que todos possam agir na cena. 

Queimão no corredor 7 - Foto: Guto Muniz

Num momento em que o país volta a discutir de maneira tão intensa os limites da jornada de trabalho, inclusive com o debate sobre a escala 6x1, o trabalho encontra uma questão extremamente contemporânea. Mas vai além dela e pergunta quanto de uma vida pode ser entregue ao trabalho até que reste pouco dela para ser vivida.

Se no Cicalt a violência se apropria do tempo e do corpo, na cena do Teatro Universitário da UFMG, “Sem Mim o Que Você Seria?”, ela tenta se apropriar da identidade, da linguagem, do desejo e da liberdade do outro. A relação de poder está dada também visualmente: de um lado, Próspero, o homem branco, de sapatos lustrados, gravata-borboleta, sentado diante de seus livros; do outro, Caliban, em pé, descalço, com as calças arregaçadas. Um representa a autoridade de quem se considera detentor do conhecimento e da civilização, enquanto o outro é chamado de selvagem, macaco, besta, bárbaro. O colonizado e o colonizador; o oprimido e o opressor; o vencedor e o apagado da história. 

“Sem mim, o que você seria?”, pergunta Próspero a Caliban em certo momento. E talvez esteja aí uma das ideias mais violentas da cena, o fato de o dominador não apenas subjugar o outro, mas procurar convencê-lo de que sua dominação foi um benefício. De que aquilo que lhe retirou foi, na verdade, o preço necessário para torná-lo civilizado. Por isso é tão potente a imagem da gravata, que em determinado momento parece se transformar quase numa coleira de comportamento. A tomada de consciência de Caliban passa, então, pela possibilidade de reconhecer como violência aquilo que lhe ensinaram a entender como evolução. E assistimos a esse exato momento em que ele, fortalecido pelo seu canto ancestral, decide não cumprir mais o papel que lhe impuseram. 

Sem mim o que você seria - Foto: Guto Muniz

“Bipedia”, do Cefart, aparentemente rompe com esse universo. É talvez a cena mais inusitada da noite, construída pelo absurdo, pela comicidade e por duas atrizes que demonstram maturidade no domínio corporal e vocal, no jogo entre elas, na triangulação com a plateia e, principalmente, no tempo do humor. Há também um cuidado evidente na composição visual e nos figurinos. E é justamente porque recusa uma lógica imediatamente reconhecível que a cena produz um estranhamento diferente das anteriores.

Mas é curioso como, por outro caminho, ela acaba reencontrando a mesma questão. Uma mulher mata uma galinha por dia porque já não sabe o que fazer com os ovos. A solução é desproporcional, absurda — e justamente por isso perturbadora. E há uma frase que talvez seja uma possível chave para o trabalho: “Eu só faço o que eu tenho que fazer, e metade das coisas que eu faço eu não sei nem por que eu faço.” Aqui, já não existe um patrão claramente identificado ou um colonizador diante de nós. A violência parece ter sido internalizada. É a ação automatizada, a repetição, a incapacidade de interrogar a lógica que determina aquilo que fazemos. E há algo especialmente inquietante no contraste entre essa violência e a aparência angelical da personagem, quase uma versão dessas imagens viralizadas da esposa perfeita, organizada e satisfeita com a vida que escolheu ou que acredita ter escolhido.

Bipedia - Foto: Guto Muniz

É nesse ponto que “Nada a Dizer”, da PUC Minas, pode funcionar quase como um desaguadouro da noite. Se as outras cenas ainda permitem localizar aquilo que oprime — o trabalho, o colonizador, uma lógica de comportamento —, o exercício inspirado na dramaturgia de Beckett nos coloca diante de algo menos identificável que é o próprio absurdo da existência. E há coragem em assumir a cena como exercício, inclusive visualmente. Os atores aparecem com roupas que remetem à própria sala de aula, sem tentar esconder a condição de artistas em formação ou revestir o trabalho de um acabamento que ele não pretende ter.

Mais uma vez, porém, é no encontro entre os corpos que o exercício ganha força. Na referência a “Dias Felizes”, por exemplo, os três atores que aparentemente estariam fora daquela ação utilizam os pés para construir uma espécie de saia, um volume que prende a personagem. Os outros corpos constroem aquilo que a aprisiona. É uma imagem simples, mas que sintetiza algo que atravessou toda a noite: corpos submetidos a forças que os limitam e, ao mesmo tempo, corpos que precisam uns dos outros para que a própria cena exista.

Talvez aí esteja o ponto de encontro entre quatro propostas tão diferentes. Há uma violência que vai progressivamente perdendo o rosto ao longo da noite. Primeiro, ela está numa estrutura bastante concreta do trabalho e suas hierarquias. Depois, assume a relação histórica entre colonizador e colonizado. Em “Bipedia”, já aparece incorporada ao comportamento de quem faz aquilo que “tem que fazer” sem saber exatamente o porquê. Até chegarmos a Beckett, quando talvez nem seja mais possível apontar o responsável, onde resta o indivíduo diante do absurdo da própria existência.

Se as personagens parecem submetidas a diferentes estruturas, o público acompanhou justamente a experimentação de maneiras de transformá-las em linguagem no palco. Seja pela sincronia e pelo movimento coletivo no Cicalt, seja pelo embate entre dois corpos no TU, pelo humor e pelo absurdo no Cefart ou pela composição coletiva e pela abstração na PUC. É como se, diante de um mundo que tantas vezes retira das pessoas o domínio sobre seus corpos, desejos e escolhas, o teatro viesse reivindicar esse direito por meio desses jovens artistas.

E essa é uma imagem bonita para a abertura de uma noite dedicada às escolas. Vinte e sete edições depois, o Cenas Curtas continua oferecendo algo que é enorme: um espaço em que Belo Horizonte pode acompanhar seus artistas enquanto eles ainda estão em processo. E, nessa primeira noite, o que eles parecem nos devolver é uma pergunta incômoda e profundamente contemporânea: quanto de nós ainda nos pertence quando as estruturas começam a determinar a maneira como vivemos?

Nada a fazer - Foto: Guto Muniz

 

NO CALOR DA NOITE - DIA 01 - 07/09/2026

Por Soraya Belusi

Há algo muito particular no clima do Festival Cenas Curtas. Em sua 27ª edição, ele já é uma espécie de patrimônio da vida teatral de Belo Horizonte, não apenas por sua longevidade, mas pela relação que construiu com a cidade. Há uma torcida na plateia, uma disposição para o encontro e para o risco, um desejo genuíno de que a cena aconteça. E isso ganha um significado ainda mais especial na primeira noite, dedicada às escolas de formação teatral de Belo Horizonte, com trabalhos de alunos do Centro Interescolar de Cultura Arte Linguagens e Tecnologias - Cicalt, Teatro Universitário da UFMG, Cefart - Fundação Clóvis Salgado e Escola de Teatro PUC Minas. De certa forma, era a cidade olhando para quem está aprendendo, experimentando e começando a construir os seus caminhos teatrais. E, diante de trabalhos tão distintos, uma questão parecia atravessar a noite e meu olhar sobre eles: que mundo esses jovens artistas estão enxergando e escolhendo colocar em cena?

Curiosamente, as quatro respostas parecem atravessadas por diferentes formas de violência. Não necessariamente a violência explícita, física, mas aquela que se infiltra no cotidiano, determina relações, condiciona comportamentos e, em alguma medida, retira do indivíduo o domínio sobre a própria existência. É a violência do trabalho que consome a vida; da dominação que procura apagar a identidade do outro; da ação repetida sem consciência de suas razões; e, por fim, de uma existência confrontada com sua própria falta de sentido. E é significativo que essas questões não sejam materializadas apenas nos temas escolhidos, mas sejam construídas também nos corpos e nas relações entre os atores.

Em “Queimão no Corredor 7”, apresentada pelos alunos do Cicalt, a morte está anunciada desde o início: um trabalhador morrerá durante aquele expediente. Mas aquilo que inicialmente parece individual vai se espalhando pela cena. Acompanhamos a fiscal, o segurança, a funcionária do caixa, o estoque, o herdeiro do negócio, aquele que se alia ao patrão, aquele que se revolta, mas não consegue sair. E, aos poucos, percebemos que, embora apenas uma morte tenha sido anunciada, todos estão morrendo um pouco. “É um mal de família morrer de tanto trabalhar”, diz um dos personagens, numa frase que transforma o trabalho em herança e destino.

E a própria encenação ajuda a construir essa ideia. Há muita movimentação, sincronia e um bom entrosamento entre os atores, como se aqueles corpos compusessem juntos uma grande engrenagem. É na atuação do coletivo que se constitui a força da cena; a dramaturgia potencializa esses espaços para que todos possam agir na cena. 

Queimão no corredor 7 - Foto: Guto Muniz

Num momento em que o país volta a discutir de maneira tão intensa os limites da jornada de trabalho, inclusive com o debate sobre a escala 6x1, o trabalho encontra uma questão extremamente contemporânea. Mas vai além dela e pergunta quanto de uma vida pode ser entregue ao trabalho até que reste pouco dela para ser vivida.

Se no Cicalt a violência se apropria do tempo e do corpo, na cena do Teatro Universitário da UFMG, “Sem Mim o Que Você Seria?”, ela tenta se apropriar da identidade, da linguagem, do desejo e da liberdade do outro. A relação de poder está dada também visualmente: de um lado, Próspero, o homem branco, de sapatos lustrados, gravata-borboleta, sentado diante de seus livros; do outro, Caliban, em pé, descalço, com as calças arregaçadas. Um representa a autoridade de quem se considera detentor do conhecimento e da civilização, enquanto o outro é chamado de selvagem, macaco, besta, bárbaro. O colonizado e o colonizador; o oprimido e o opressor; o vencedor e o apagado da história. 

“Sem mim, o que você seria?”, pergunta Próspero a Caliban em certo momento. E talvez esteja aí uma das ideias mais violentas da cena, o fato de o dominador não apenas subjugar o outro, mas procurar convencê-lo de que sua dominação foi um benefício. De que aquilo que lhe retirou foi, na verdade, o preço necessário para torná-lo civilizado. Por isso é tão potente a imagem da gravata, que em determinado momento parece se transformar quase numa coleira de comportamento. A tomada de consciência de Caliban passa, então, pela possibilidade de reconhecer como violência aquilo que lhe ensinaram a entender como evolução. E assistimos a esse exato momento em que ele, fortalecido pelo seu canto ancestral, decide não cumprir mais o papel que lhe impuseram. 

Sem mim o que você seria - Foto: Guto Muniz

“Bipedia”, do Cefart, aparentemente rompe com esse universo. É talvez a cena mais inusitada da noite, construída pelo absurdo, pela comicidade e por duas atrizes que demonstram maturidade no domínio corporal e vocal, no jogo entre elas, na triangulação com a plateia e, principalmente, no tempo do humor. Há também um cuidado evidente na composição visual e nos figurinos. E é justamente porque recusa uma lógica imediatamente reconhecível que a cena produz um estranhamento diferente das anteriores.

Mas é curioso como, por outro caminho, ela acaba reencontrando a mesma questão. Uma mulher mata uma galinha por dia porque já não sabe o que fazer com os ovos. A solução é desproporcional, absurda — e justamente por isso perturbadora. E há uma frase que talvez seja uma possível chave para o trabalho: “Eu só faço o que eu tenho que fazer, e metade das coisas que eu faço eu não sei nem por que eu faço.” Aqui, já não existe um patrão claramente identificado ou um colonizador diante de nós. A violência parece ter sido internalizada. É a ação automatizada, a repetição, a incapacidade de interrogar a lógica que determina aquilo que fazemos. E há algo especialmente inquietante no contraste entre essa violência e a aparência angelical da personagem, quase uma versão dessas imagens viralizadas da esposa perfeita, organizada e satisfeita com a vida que escolheu ou que acredita ter escolhido.

Bipedia - Foto: Guto Muniz

É nesse ponto que “Nada a Dizer”, da PUC Minas, pode funcionar quase como um desaguadouro da noite. Se as outras cenas ainda permitem localizar aquilo que oprime — o trabalho, o colonizador, uma lógica de comportamento —, o exercício inspirado na dramaturgia de Beckett nos coloca diante de algo menos identificável que é o próprio absurdo da existência. E há coragem em assumir a cena como exercício, inclusive visualmente. Os atores aparecem com roupas que remetem à própria sala de aula, sem tentar esconder a condição de artistas em formação ou revestir o trabalho de um acabamento que ele não pretende ter.

Mais uma vez, porém, é no encontro entre os corpos que o exercício ganha força. Na referência a “Dias Felizes”, por exemplo, os três atores que aparentemente estariam fora daquela ação utilizam os pés para construir uma espécie de saia, um volume que prende a personagem. Os outros corpos constroem aquilo que a aprisiona. É uma imagem simples, mas que sintetiza algo que atravessou toda a noite: corpos submetidos a forças que os limitam e, ao mesmo tempo, corpos que precisam uns dos outros para que a própria cena exista.

Talvez aí esteja o ponto de encontro entre quatro propostas tão diferentes. Há uma violência que vai progressivamente perdendo o rosto ao longo da noite. Primeiro, ela está numa estrutura bastante concreta do trabalho e suas hierarquias. Depois, assume a relação histórica entre colonizador e colonizado. Em “Bipedia”, já aparece incorporada ao comportamento de quem faz aquilo que “tem que fazer” sem saber exatamente o porquê. Até chegarmos a Beckett, quando talvez nem seja mais possível apontar o responsável, onde resta o indivíduo diante do absurdo da própria existência.

Se as personagens parecem submetidas a diferentes estruturas, o público acompanhou justamente a experimentação de maneiras de transformá-las em linguagem no palco. Seja pela sincronia e pelo movimento coletivo no Cicalt, seja pelo embate entre dois corpos no TU, pelo humor e pelo absurdo no Cefart ou pela composição coletiva e pela abstração na PUC. É como se, diante de um mundo que tantas vezes retira das pessoas o domínio sobre seus corpos, desejos e escolhas, o teatro viesse reivindicar esse direito por meio desses jovens artistas.

E essa é uma imagem bonita para a abertura de uma noite dedicada às escolas. Vinte e sete edições depois, o Cenas Curtas continua oferecendo algo que é enorme: um espaço em que Belo Horizonte pode acompanhar seus artistas enquanto eles ainda estão em processo. E, nessa primeira noite, o que eles parecem nos devolver é uma pergunta incômoda e profundamente contemporânea: quanto de nós ainda nos pertence quando as estruturas começam a determinar a maneira como vivemos?

Nada a fazer - Foto: Guto Muniz