Cenas de Rua: perspectivas democráticas para o teatro nos tempos da “Arte de Bem”

Pedro Henrique Cícero Ferreira

do Núcleo de Pesquisa em Jornalismo Cultural

 

No dia 10 de Setembro, o Santander Cultural de Porto Alegre anunciou o fechamento da exposição “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, após o repúdio de grupos de direita nas redes sociais. A exposição contava com trabalhos de artistas renomados, como Lígia Clark, Alfredo Volpi e Leonilson.

 

As obras discutiam importantes questões de sexualidade e de gênero, e foram oprimidas por posicionamentos a favor da moralidade de uma suposta “gente de bem”. O fechamento da exposição causou grande alvoroço entre outras camadas da sociedade que se manifestaram pela liberdade da expressão artística e pela não supressão das pautas LGBTQIA+.

 

Em meio a todas essas turbulências, aconteceu entre os dias 13 e 17 de setembro de 2017, a 18ª edição do Festival Cenas Curtas, realizado pelo Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte. O festival exibe uma seleção de cenas de teatro das cinco regiões brasileiras. As cenas são marcadas por uma diversa composição temática que, em vários momentos, pretende discutir a condição dxs LGBTQIA+, das mulheres e dxs negros.

 

Planejado para integrar o último dia (domingo) da programação do evento, o antigo projeto Cenas de Rua, que não era realizado desde 2008, voltou à cena. O projeto busca expandir a atuação do Galpão Cine Horto para além de seu espaço físico, localizado no bairro Horto. Essa iniciativa, aliás, possui fortes laços com a trajetória do Grupo Galpão que, desde suas expressões mais iniciais, desenvolve a modalidade do teatro de rua.

 

As Cenas de Rua pretendem visibilizar produções teatrais locais em um espaço dinâmico, vital e espontâneo como a rua. Possibilitar que o teatro possa ocupar a rua, transformando-a no próprio palco, é de extrema importância por demonstrar que as artes cênicas podem ser expressas em qualquer lugar. E, além disso, afirma que uma obra, para ser considerada arte, não precisa estar em um museu, teatro ou galeria, mas pode residir nos espaços mais cotidianos e acessíveis.

 

Nesta edição, a ocupação teatral aconteceu na Rua Genoveva de Souza, localizada próxima ao Corredor Cultural Leste, e contou com a participação de três peças elaboradas e performadas por artistas da região metropolitana da capital mineira. A peça “Tragédia Carnavalizada”, de Contagem, que levou o prêmio de destaque, e outras duas peças de Belo Horizonte: “A coisa” e “Cidade dos Assombros”.

 

Quando estava caminhando em direção à rua onde ocorria o evento, passei por uma esquina na qual vários artistas se aprontavam. Estes vestiam um figurino construído com materiais que seriam normalmente considerados lixo – como sacolas plásticas, papelão, papel, dentre outros – mas que nem por isso deixavam a desejar no quesito da qualidade de execução, mesmo que de forma simples. A cena me pareceu interessante, mas segui meu caminho com rapidez por estar atrasado para as apresentações.

 

Após virar a esquina para chegar à rua do evento, um dos atores que estava se aprontando seguiu ao meu lado, com um andar desajeitado. Ao caminhar, demorei alguns tempo para perceber que a peça já havia começado e, personagem desajeitado e eu, estávamos em cena, assim como qualquer outro que estava presente. Retraí-me, tímido, para o passeio e fiquei curioso para o desvendar do espetáculo.

 

Acontecia, naquele momento, a cena curta “A coisa” que, por meio de uma abordagem do teatro do oprimido de Augusto Boal, representava a população de rua sem cair no estereótipo e, sobretudo, trazendo à tona as diversas vulnerabilidades às quais este grupo é exposto. A peça utilizou-se de um contexto de exclusão social e de uma não-estética (ou talvez contra-estética?) para refletir a relação da população de rua com a cidade e da sociedade com a população de rua. A peça contou também com uma trilha sonora impressionante, tocada ao vivo com latas de metal, canos e outros materiais somados ao canto dos atores.

 

O espetáculo deu uma lição ao demonstrar as possibilidades do teatro integrar-se, de fato, com a rua, uma vez que estendeu o palco para a rua como um todo e permitiu que todos que nela fluíssem pudessem ser atores em cena. Nesse sentido, problematizou socialmente e com sensibilidade a presença da população de rua na cidade enquanto algo “naturalizado”, e pior, invisível.

 

Essa experiência permitiu pensar novas possibilidades para um teatro feito pela rua, da rua, na rua e, principalmente, para a rua. Fica o questionamento de como construir uma arte diversa, representativa e acessível, que busca evocar as vozes suprimidas por uma tradição moral, se não na rua: um espaço socialmente construído? Em tempos de golpe e de censura a arte, torna-se urgente se apropriar da performance enquanto lugar de fala, de discussão, de grito pelas demandas e de denúncia das injustiças.

 

“Tragédia Carnavalizada” | 18º Festival Cenas Curtas
Foto: Guto Muniz

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