No Calor da Cena | 16.09 | por Soraya Martins

18º FESTIVAL CENAS CURTAS | NOITE #4

 por Soraya Martins

A última noite do Festival de Cenas Curtas foi uma explosão de discursos urgentes tecidos pelo corpo-palavra-discurso. Corpos pulsantes em performance, e que são performances, colocaram em cena dramaturgias de protagonismo artístico e político, marcando seus lugares de enunciação e seus enunciados, radicalizando, no sentido mais positivo, a dimensão (est)ética em arte.

 

A quarta noite, começa com experimento Afro-Butoh trazido pela cena Espírito Nu- A solidão da mulher negra, de São Paulo (SP). Duas mulheres negras dançam uma dança experimento para tocar em uma das camadas mais perversas do racismo, com o bônus do machismo: a solidão da mulher negra. Na verdade, solidões, é no plural, solidão amorosa, acadêmica, solidão de mãe e de filha, solidão de compor a base da pirâmide sociarracial no Brasil e tudo mais que isso acarreta. Dois corpos pretos de mulher tecendo a potencialidade da palavra corpo: gestos e movimentos que não são uma representação mimética, narrativos ou descritos, são performativos, o que nesses corpos dançam e se repete são vivências, experiências em contínuo movimento de criação, remissão e transformação. A palavra, aqui, quando chega, vem dos versos da poesia de Elisa Lucinda e dão a dimensão e o tom do experimento: “Porque deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata”. Espírito Nu dança histórias que as narrativas e livros oficiais tendem a camuflar, revela já no título, nutre e resguarda nos corpos uma performance contestatória e de recriação.

 

Depois da dimensão do real que Espírito Nu- A solidão da mulher negra traz, entra em cena para nos fazer rir, rir muito – talvez ainda atônitos, sem saber lidar com a nervura poética da performance anterior. Cê é burro?, de São Paulo (SP): Dois múltiplos artistas de mundos e pesquisas diferentes entram no picadeiro. Dois palhaços, um tradicional e outro contemporâneo, misturando a linguagem do circo, com gestos e movimentos exagerados que lembram também a linguagem dos desenhos animados, dão o tom da palhaçada, no sentido potente da palavra. Aliás, a crítica dessa cena vem do desnudamento do mundo das artes, mais especificamente da dança e do teatro, em que frases feitas, com palavras de “efeito”, tipo potente, que acabei de escrever, que de tão usadas não potencializa nada, esvazia, mas preenche nossas pretensas definições, são colocadas à prova no picadeiro. Com ironia e sarcasmo e riso de fazer doer a barriga, os dois múltiplos artistas, num jogo de metalinguagem, questionam o que é arte, o conceito guarda-chuva do termo contemporâneo, o teatro e os próprios artistas. Cê é burro?

 

A terceira cena é outra dança, mais um corpo-discurso-presença de mulher que coloca no palco questionamentos que a palavra-linguagem, por mais que existimos somente nela, se mostra limitadora para compor um discurso que é da ordem do gestus, que não se limita aos “gestos” propriamente ditos, à pantomima; se estende à fisionomia e compreende as falas, o todo constituindo a atitude de pessoas e grupos envolvidos em relações inter-humanas. Refém Solar, de Belo Horizonte (MG). Um corpo de mulher preta. Corpo refém de si mesmo lido nos telões e televisões e carnavais. Corpo, literalmente, coberto com o brilho que a sociedade quer/permite/aceita, porque se não for assim, é corpo Cláudia Silva Ferreira coberto com poeira do asfalto. Fragmentos de músicas, textos e vozes compõe o solo de Elisa Nunes que, assim como em acontece em Espírito Nu, traz pontualmente a palavra falada para expor, e não deixar dúvidas, a ferida aberta do nosso passado escravocrata que não passa, e dessa exposição expurgar o “brilho”. Na cena final, cada pontinho de purpurina que cobria o corpo da dançarina foi radicalmente tirado, e essa imagem desenhada no e pelo corpo preto de mulher, funda toda sua eficácia numa dança da vivência, do trauma, do desejo e da memória. Uma dança que busca cobrir as faltas, os vazios e as rupturas das culturas e dos corpos que tiveram, e ainda têm que se recriar no Brasil.

 

Minha história que eu nunca vi, de Belo Horizonte (MG), encerra a 18º edição do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto com uma performance artística, política e contestatória dos imaginários treinados para as mesmas histórias. Quatro artistas tecem uma dramaturgia marcada pelos seus lugares de enunciação e seus enunciados. Quatro corpos trans. De início o palco vazio, o público não via nenhum dos quatro corpos-políticos, nenhuma presença. Estava ali a história silenciada, que eu também nunca vi. Aos poucos, saem da plateia e cada artista ocupa o seu lugar no palco, evidenciando uma ocupação que vai além da dimensão física: ocupa-se um lugar na história, um espaço político para tecer uma narrativa outra, para refletir e produzir outras éticas e subjetividades em arte e na vida. Quatro banheiros construídos e ocupados, cada corpo-discurso – João Maria Kaisen, Juhlia Santos, Libernina Aninrebil e Rodrigo Carizu- na sua individualidade de ser e de ser política expunha seus corpos nus e mandava “beijos”, sim, para o nosso preconceito (que assim como o racismo paira no ar e não é tão velado como insistimos: matam-se as pessoas). Cada corpo-presença ocupando o poder de fala: “Quem tem coragem de trocar as placas dos banheiros da cidade? E de trocar a placa do banheiro do Sesc Palladium?  Nenhuma cabeça vai escorrer pelo ralo”. Aqui, ser contestatório é estético.

 

Na terceira noite dos cenas curtas, escrevi sobre o meu desejo do último dia de festival ser tão potente quanto o terceiro. Foi.

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