No Calor da Cena | 15.09 | por Soraya Martins

18º FESTIVAL CENAS CURTAS | NOITE #3

 por Soraya Martins

 

Orgânica. Elas também usam Black Tie. Camarim. Boa Aparência. A terceira noite do Festival de Cenas Curtas foi tecida por uma explosão de corpos-presenças que, mais do que encenar, se jogaram em cena para elaborar/laborar/experimentar as potencialidades do silêncio, da ironia, da memória e do corpo-palavra-grito que inverte o teatro da “boa aparência”.

 

Três corpos femininos. Corpos diferentes em diálogo com o espaço-tempo da natureza e com o feminino singular que habita cada um dos corpos das três mulheres. Orgânica, de Belo Horizonte (MG), joga com os movimentos desses corpos na natureza via projeção ao mesmo tempo em que, ao vivo, em cena, compõe uma dramaturgia corporal que indica que esses corpos são mais do que corpos, são corpos- tela, digital, corpos de enunciado e enunciação, corpos culturais preenchidos não pela palavra, que muitas vezes só faz esvaziar, mas pelo grito silencioso que ressignifica o lugar mesmo do(s) feminino(s). As tessituras-camadas de Orgânica, que jogam com dança, som e vídeo, jogam também com as dimensões do real-virtual, não somente na esfera do contraste, como também na composição de  uma estética que concretiza o imaginário e ficcionaliza o real.

 

Elas também usam Black Tie, de Ibirité (MG), usam mais do que Black Tie, usam três corpos de mulheres para transformar as dores de ser mulher preta em vários âmbitos – das relações familiares, passando pelo “eu namoraria você se não tivesse dando um tempo”, até as relações abusivas no trabalho – em Jazz.  O percurso que vai da confirmação das relações de opressão até o ato de vingança/luta é tecido por uma ironia, não uma qualquer, mas uma ironia melancólica no sentido de “rir” da exposição de uma ferida aberta: o racismo nas suas dimensões mais perversas. Elas tensionam esse riso melancólico e dele fazem emergir três microproduções do desejo que irrompe com uma passividade. No Jazz: três corpos-presenças tecendo um cantopolítico que faz do ressentimento potência criadora, que no jogo da cena tenta mudar padrões coloniais do ser, do saber e do poder em ato estético-performativo. Elas também… são corpos culturais, de enunciado e enunciações pretas, em semiose e semióticos, significando, performatizando identidades, produzindo outras possibilidades subjetivas, éticas e estéticas em arte.

 

A terceira cena do terceiro dia traz outra vez em quando três mulheres. A manipuladora, a marionete mais velha e a marionete mais nova. Camarim, de São João Del Rei (MG), traz o universo “lúdico” da marionete para falar sobre peso do tempo, da velocidade com que a vida passa. Sopro. Dissipação da existência. No entre que se forma do corpo da manipuladora que, mais que manipular, concretiza o corpo da marionete, jovem e velha, com texturas, volumes, presenças, dores e memórias, vê-se o trazer à tona de uma juventude que um dia floresceu. A memória lembra do corpo viçoso, do rosto ainda sem marcas dos caminhos, dos inícios. Lembra no instante do presente que é preciso tirar a poeira que insiste em denunciar a crueldade do tempo. No camarim, o corpo da manipuladora compõe o corpo-memória da marionete e esses dois corpos em um performatizam uma memória que fala do lugar também do trauma, corporifica um recorte/uma fatia de vida da mulher que está em cena para narrar abusos e relaborar a própria existência. Jogo sofisticado na manipulação do simples. Da noite para o dia chega-se ao fim da vida e no hiato vazio que é a própria memória, a vida se encena.

Boa Aparência, de São Paulo (SP): Uma mulher dá vida às lembranças e sonhos de três homens. Os quatro corpos pretos trazem para a cena lembranças traumáticas, de ordem diferente do trauma da cena anterior. Aqui, o trauma é histórico e social e racial, fala de um lugar de enunciação que tem a ver com a noção de memória, história e reminiscências no que se refere à busca por reconhecer-se como sujeito enunciador de seu próprio discurso. O corpo-palavra-discurso berra um berro que conecta presente, passado e futuro, fala de um tempo que não é cronológico, mas espiralar, que vai dos ancestrais, passando pelos porões dos navios negreiros até chegar a Rafael Braga e voltar aos ancestrais para nesse tempo forçar o novo. Em Boa Aparência, ironicamente, o caos, o ruído e a sobreposição de vozes no jogo da cena permitem manter a tensão, historicamente crucial, que pauta as relações entre indivíduo e história. A ironia melancólica também se faz presente nessa cena, no sentido de uma melancolia da forma/estética que retoma sempre uma ferida social aberta e dela elabora um passado que não foi superado. A ironia é tensionamento. Tá tudo bem! Usa-se Black Power. Tem-se o Núcleo Negro de Teatro, cotas na USP. Tá tudo bem! Pode-se sonhar? Tá tudo bem! Quem ousaria a questionar a boa aparência das nossas relações sociorraciais?

 

E assim esperamos também o devir-potente do quarto dia de festival!

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