CENAS CURTAS 2018 | No Calor da Cena | dia 3

No Calor da Cena – 28/09/2018

>> fotos: Guto Muniz

 

Poéticas do trabalho solo para se construir ideias-multidão

por Clóvis Domingos

A terceira noite do Festival de Cenas Curtas foi marcada pela apresentação de trabalhos solos. Aparecida. Seguindo Passos. Para Rocío Jurado. Manobras de McBurney Feliz. Nos monólogos ou cenas solo, a experimentação estética trouxe o desafio para que uma singularidade pudesse se coletivizar no encontro com o público. A presença de um único corpo em cena não pode ser entendida apenas como um solitário exercício de técnica, mas sim como um vetor de forças capazes de colocar em jogo e rede uma pluralidade de signos que geram delicadas e complexas camadas de recepção.

Como compor poeticamente a partir de materiais subjetivos tornando-os de alguma forma espaços de experimentação coletiva? Como criar afetações e zonas de contágio? Como transformar o espaço cênico inicialmente habitado por um (a) intérprete num lugar comum no qual muitos corpos se atravessam? Quais aderências? Quais porosidades? Como não impor presença, mas instaurar escuta e diálogo?

Outro ponto a ser destacado nas proposições desse tipo de cena solo é sua inter-relação com outros criadores e provocadores. Dessa forma se dilui certa ideia de uma autoria exclusiva e o que temos é a efetivação de processos de natureza colaborativa, cujos resultados já trazem em suas elaborações, marcas e enunciações de alteridade criativa, pontos de divergência, multiplicidades, turbulências e negociações.

Nesse ponto, quando pensamos estar assistindo a um trabalho solitário, estamos na verdade nos deparando com uma expressão pluralizada. Se vivemos numa época em que subjetividades estão se produzindo em cena, o grande desafio é como não abrir mão do exercício crítico e minimamente poético, nesse limiar entre o estético e o político. Como partilhar os sensíveis e os vivíveis?

A primeira cena da noite, Aparecida, de Betim, prima pela delicadeza. Alterna o claro e o escuro, o aparecer e o desaparecer, a terra e o céu, o dia e a noite, o presente e o passado. O monte de terra localizada no centro do espaço cênico, sugere tanto a horta com cheiro de chuva quanto uma cova para se cavar histórias e também se enterrar dores.

Aparecida fala de feminino, de tradição familiar e matriarcal, da transmissão que passa pela boca e pelos sentidos tendo a comida como campo afetivo e de memória, também revelando uma realidade de pobreza e exclusão. Acompanhada de um músico com seu berimbau a dialogar com as diferentes nuances da narrativa que se oferece, a interpretação da atriz encontra o tom certo para encarnar a jovem, que entre santa e humana, conversa com o fantasma materno e arcaico ao mesmo tempo que luta contra um mundo perverso e veloz que exige sua adequação.

Aparecida trata de aparição, rasgo de existência, quebra de espelhos. Aparecida deseja aparecer, vida aqui-agora. Destaco a plasticidade da cena e a iluminação primorosa que consegue criar, pelo recurso da utilização da fumaça branca, um céu de nuvens a cobrir no final a mulher-santa. Os discursos de racismo e violência transversalizam a cena, sem um enfrentamento direto, mas estão nas entrelinhas da vida e educação domésticas. A casa fala do mundo.

O amor e o feminino também conversam em Seguindo Passos, do Rio de Janeiro. Entre o branco e os fios vermelhos, La Maga nos conta a história de um encontro amoroso e sua perda trágica. Chama atenção o domínio técnico e corporal da atriz, que através de coreografias de natureza acrobática, tece os arroubos de uma paixão ao mesmo tempo que experimenta o contato mais intenso com a vida.

Há três momentos de passagem na cena que compõem uma estrutura triangular espaço-temporal: o início da caminhada (a instigante imagem do corpo de cabeça para baixo e com as pernas para o alto apresentando os pés caminhando solitariamente), depois as vivências amorosas (na relação estabelecida com um banco em suas múltiplas possibilidades sígnicas) e finalmente a saudade do ser amado (na relação com a camisa branca pendurada simbolizando uma ausência).

Nessas transições, se evidencia a saída da solidão e o retorno forçado à mesma. Mas se no primeiro momento, La Maga metaforicamente é um corpo-metade, no final, mesmo sozinha, está verticalizada, inteira e habitada pela força de ter conhecido o amor. Seguimos os passos dessa caminhada entre vida, amor, memória e morte. Essa travessia é compartilhada pelas dinâmicas espacial, coreográfica e discursiva que compõem o solo.

A terceira cena, Para Rocío Jurado, de Belo Horizonte, tem características de teatro documentário. Nesse trabalho, diferentes narrativas entram em disputa: entre o glitter e o grito, José Roberto In Concert realiza uma corajosa exposição de si, ao mesmo tempo que pelos fios da memória recupera as histórias de muitos outros artistas e espaços extintos e esquecidos na noite gay da cidade. As projeções em vídeo se contrastam e dialogam com a presença real do artista a tensionar assim o íntimo e o público.

Nessa cena, é como se tivéssemos acesso ao camarim de uma subjetividade, a seus bastidores (ou “bate-dores”), ao antes do show e do espetáculo, e assim toda a purpurina perde seu brilho quando somos confrontados com depoimentos de dor e preconceito. O ser humano em sua vulnerabilidade está em cena para além da figura alegre e festiva do artista transformista. E mais: o corpo idoso se insurge contra a ditadura da juventude (tão cara ao mundo gay contemporâneo) numa afirmação do tempo como resistência, e nos números de dublagem há doses de humor, erotismo e alegria.

Em Para Rocío Jurado, percebemos a luta de quem enfrentou tempos de horror e marginalização (as notícias veiculadas nos jornais sobre as mortes dos homossexuais, o surgimento da Aids etc), e que ainda temos tanto a conquistar, a lutar, a transformar. O artista, com mais de sessenta nos de idade, estreia no teatro tendo o retrato da mãe e a presença dos espectadores como testemunhas dessa sua fome de viver. Uma cena de desmontagem para abordar o trabalho e a vida de artistas que se montam.

A última cena da noite, Manobras de McBurney Feliz, de Belo Horizonte, traz em comum com a cena anterior, a desconstrução dos ditames e discursos de produção e manutenção de um corpo canônico. O atuante também expõe seu corpo para denunciar a gordofobia que impera em nossa sociedade: seu corpo se encontra rodeado, no espaço cênico, de inúmeras latas de suplementos alimentares que fazem parte das estratégias médicas, econômicas e midiáticas da Grande Saúde, além da balança para se pesar.

Mas ali ele dança, brinca e se debate entre comer a “saudável” maçã ou o “criminoso” pacote de Cheetos. Um trabalho com forte apelo cômico e crítico, uma cena musical, uma tomada de posição. Revelam-se os dispositivos que oprimem os corpos em sua diferença e toda a cena é norteada pela música e pela dança, fazendo de uma questão muitas vezes dolorosa uma possibilidade de criação de saúde poética.

Precisamos engordar é nosso olhar e percepção sobre as múltiplas corporrealidades e assim emagrecer nossos preconceitos. Chutar as latas e produtos de uma normalidade doentia – essa pode ser uma boa manobra e subversão que a referida cena convoca. No final, em silêncio, acompanhamos o artista Mc Feliz comendo um sanduíche nada light, a nos encarar, não de forma agressiva ou vitimizada, apenas nos dizendo que há muitas maneiras de ser corpo, ser desejo, ser presença no mundo.

A terceira noite do Festival de Cenas Curtas nos proporcionou possibilidades de convívio e criação coletiva. As singularidades das cenas solo, de alguma forma, se expandiram para composições heterogêneas, reconfigurando o eu e o nós, o particular e o geral, o micro e o macro, marcando sim aquilo que nos diferencia e escancarando a matéria comum daquilo de que somos feitos. Zonas de contaminação foram criadas borrando as noções de indivíduo e grupo. Ideias-multidão a invadirem e trocarem radiações estético-políticas que compõem a dimensão ética do fazer teatral. Vivenciei uma comunhão de apelos e peles que em sua diferenciação apontaram para modos possíveis de se estar, criar e resistir juntos.

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