CENAS CURTAS 2018 | No Calor da Cena | dia 2

No Calor da Cena – 26/09/2018

>>> fotos: Guto Muniz

 

Sobre fogueiras e corpos

por Nina Caetano

Já em sua 19ª edição, o Festival de Cenas Curtas é marcado pela conexão com o seu tempo, que se apresenta na tônica dominante entre os projetos selecionados este ano que, segundo Chico Pelúcio, idealizador do Festival e diretor do Galpão Cine Horto, “contempla, em número bastante expressivo, questões urgentes em risco de retrocesso no Brasil, como a representação da cultura negra, feminismo, gênero e direitos de excluídos”.

Além disso, essa conexão com o tempo de agora também se apresenta nas tentativas da equipe gestora do Festival de repensar seu formato, ao longo desses quase 20 anos de realização. Inicialmente voltado somente para cenas de palco, com duração de 15 minutos e apresentadas no Teatro Wanda Fernandes, o festival já contemplou cenas de rua, abriu-se para outros espaços de Belo Horizonte, se expandiu para outras cidades e estados, teceu redes, gerou outros projetos de fomento e serviu como espaço de experimentação e risco para muitos artistas locais e de todo o Brasil.

Na atual edição, estão as cenas de rua – sempre no desejo de conectar o Festival às raízes do grupo Galpão e fomentar uma poética que, no entendimento de Chico Pelúcio, corre o risco de ser extinta – e também os rolês. Estes últimos participam do desejo de buscar conexões e se abrir a outros espaços, especialmente dando visibilidade ao “Corredor Leste”, a ocupação cultural que, nos últimos anos, vem ocorrendo no entorno do Galpão Cine Horto, a partir da gestão de espaços por coletivos teatrais, artistas independentes e agentes da cultura, como é o caso da Gruta!, Teatro 171, Zona Last e do bar Santa. Os rolês têm curadoria feita, justamente, por seus gestores e a escolha das atrações que os compõem foi pautada na diversidade de linguagens e na adequação das propostas aos espaços que as recebem.

Assim, em 2018, temos as apresentações das cenas de palco no Teatro Wanda Fernandes e, posteriormente, o público é convidado a “dar um rolê”, se deslocando a cada noite para um desses espaços para acompanhar os trabalhos que lá ocorrem, além de poder continuar degustando uma cervejinha. A cervejinha já entra no cardápio antes, pois as apresentações no palco são entremeadas por espécies de entreatos, diferentes a cada edição e a cada noite, e que é espaço também para a venda de bebidas. Esses elementos dão um clima de festa e descontração ao Festival que, muitas vezes, marca a recepção das cenas.

Ontem, na segunda noite do Festival de Cenas Curtas, foram apresentadas quatro cenas muito distintas entre si em relação aos eixos temáticos, mas também por suas poéticas: em comum, a experimentação de possibilidades. Embora com um tom menos marcado que o da primeira noite, a segunda também trouxe questões de ordem estético-política. Mas vamos com calma. Falemos de cada uma delas.

A primeira cena, Viagem à Lua, proposta de João Paulo Prazeres, de Belo Horizonte, buscava, por meio de soundpainting, conduzir o espectador numa viagem acionada por música, movimentos corporais e narrativa, num jogo em que a palavra ganhava materialidade e a música produzia paisagens.

A segunda cena, Axexê da Bailarina (Calu Zabel – São Paulo), propunha-se a “uma investigação poética das mitologias afro-brasileiras” a partir da recriação do axexê, ritual fúnebre do candomblé, por meio da dança. No entanto, a escolha por um registro apolíneo e por uma corporeidade marcada pelo ballet clássico distanciou de nós o ritual de raízes negras, embora alguns elementos – como o som dos pássaros, um suave batuque ou o mascaramento realizado por um véu diáfano – pudessem remeter ao universo mítico pretendido.

A terceira cena, Ensaio sobre Fragilidade, trouxe, sob a condução de Mário Rosa, dois performers ao palco para construir, com delicadeza, instantâneos de afeto entre dois homens negros – Anderson Feliciano (autor da proposta) e Demétrio Alves. Num registro performativo, a cena era atravessada por intervenções sonoras, propostas ao vivo por um terceiro homem negro, Jhonatta Vicente. Cheia de densidade e quase minimalista, a cena traz à tona, por meio da relação sutil entre os homens – deitados no chão, um chupa o pé do outro – o desejo, mas também a agressividade (marcada no final pelo escarro branco), de modo a colocar em xeque a sexualidade do homem negro. Propondo outras fabulações e conectada à produção contemporânea, a cena preta tem se mostrado potente.

A quarta e última cena, Brasa, realizada pela plataforma Doras, sob a condução de Luísa Bahia, é uma fogueira acesa no palco por 16 mulheres. Um tango que logo se desfaz em uma simultaneidade de ações: umas dançam, outra arrasta uma pedra. O ritmo aumenta. As mulheres se fundem, numa profusão de humor, sensualidade e desordem. As ações se transformam rapidamente, numa coralidade explosiva de corpos e vozes. Na poética proposta em cena, misturam-se o canto, a narrativa, as diversas corporeidades, o gesto, o gemido, o riso, a alegria de corpos que anseiam liberdade.

“O Cenas Curtas é das mulheres!” foi o que ouvi na saída, de um espectador que se referia às cenas mais aplaudidas nas duas primeiras noites do festival.

Veremos o que virá! Mas, com certeza, se há revolução, ela será preta. E feminista.

 

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