CENAS CURTAS 2018 | No Calor da Cena | dia 1

No Calor da Cena – 26/09/2018

>>> fotos: Guto Muniz

19º FESTIVAL CENAS CURTAS | NOITE #1

 

Das peles e dos apelos: onde isso reúne e onde isso separa? 

por Clóvis Domingos

 

Começa mais uma edição do Festival Cenas Curtas, projeto do Galpão Cine Horto, que há dezenove anos fomenta a criação, produção e apresentação de trabalhos cênicos de curta duração que são experimentados em diversos formatos e linguagens, se configurando como importante celeiro do fazer teatral em nossa cidade e no Brasil. São inúmeros espetáculos de significativa repercussão que surgiram inicialmente como células cênicas apresentadas pela primeira vez no Festival Cenas Curtas. Em seus quase vinte anos de existência, o Festival Cenas Curtas aponta e revela o que de mais sintomático acontece no campo não só das artes, como da vida social e política. O teatro de fato dialoga com seu tempo e nos permite fazer contato e elaborar coletivamente as questões de maior urgência que brotam no seio da vida comunitária.

No texto presente no programa da atual edição, temos a imagem de uma corda e a publicação do poema Nosso Tempo de Carlos Drummond de Andrade. A equipe do Cenas Curtas assume que vivemos um tempo de tensionamentos e que diante da corda podemos ter duas atitudes diferentes: esticá-la aumentando as distâncias e acirrando cada vez mais as disputas que estão em jogo (sejam ideológicas ou de qualquer outra natureza), ou então, criando laços que nos aproximam e podem nos fortificar. Sim, “esse é um tempo partido, tempo de homens partidos”, é o que nos fala Drummond. A corda quando robusta, tanto pode ser utilizada como reunião de fios soltos a nos conectar, como também pode ser utilizada como amarra, não só para o corpo quanto para o pensamento crítico e reflexivo. Como conciliar resistência e frouxidão (no sentido de porosidade e abertura) em tempos tão partidos?

Na primeira noite do Festival, tais questões de alguma forma atravessaram os trabalhos apresentados. Agô. Canto ao Mar. De Zé a Seu Zé – Dois de Nós Mesmos. Encontros e Desencontros com Fátima Bernardes. A corda de alguma forma se materializou: ora como cabresto, ora como cordão umbilical, ora como ajuntamentos, ora como reinvenção de memória. Corda como raiz, cicatriz, matriz. Da corda para o Acorda. O teatro como possibilidade de acordamento e alargamento de percepções. Antes do nó derradeiro, há fresta, ainda que pequena.

O corpo-ritual em Agô, de Belo Horizonte, e a ancestralidade destacada como um tempo sem início e sem fim. O bailarino no contato com as oferendas e seu corpo se ressignificando como afirmação de uma identidade afro-brasileira. O corpo-existência que reconhece no beco, na rua e na favela os espaços de presença de seus antepassados. Uma cena tecida com gestos religiosos e com uma enunciação discursiva que conclama força e resistência. A instalação plástica dos materiais sagrados no chão cria uma composição não só espacial como também imagética. Há também textos escritos como pontos riscados que ocupam o solo e fiquei curioso de saber do que essas grafias falavam. Como não foram lidos, nem pelo performer e nem por nós da plateia, a meu ver permaneceram pouco explorados para a proposta da cena. Ou seria uma escolha proposital dos artistas?

A segunda cena, Canto ao Mar, também de Belo Horizonte, dialoga com Agô nas referências sobre a negritude e a denúncia dos preconceitos raciais. Agô tem um tom mais afirmativo, Canto ao Mar indaga de alguma forma as questões identitárias. Porém, o mais forte para mim, em Canto ao Mar, foi a possibilidade de se abordar as dores da separação (serão referências aos navios negreiros?) e a diminuição das distâncias, pela possibilidade de narrar, lembrar e fabular. Um encontro num tempo da delicadeza. Através de uma dramaturgia e encenação épicas, o que temos nesta cena, são os fragmentos e vestígios deixados por uma história que só pode ser revivida pela força do não esquecimento. A presença de um instrumentista em cena, permite que a música seja mais um personagem e também o elo ou fio de reparação e reunião de vidas que se afastaram fisicamente. Conta-se e canta-se o que não mais está lá e a imaginação serve de rede e manancial para presentificar ausências e fissurar esse “cemitério de histórias que ainda serão contadas e resgatas desse imenso mar”. A instalação com alguns pequenos quadrados cobertos de areia, a mim simbolizava desde a escrita (pessoal e coletiva) dessas memórias nunca perdidas, derrotando assim a fugacidade do tempo e se rebelando contra o secular silenciamento colonial. Uma cena que fala de saudade, mas também de encontro. “Se lembro, tenho” nos afirma Guimarães Rosa. Dessa cena-diáspora, ficou em mim a percepção de que um corpo negro nunca fala de um indivíduo, mas acessa e atualiza uma comunidade inteira.

Já em De Zé a Seu Zé – Dois de Nós Mesmos, de São Paulo, a realidade política de nosso país invade a cena numa dimensão metalinguística (Kantor e Brecht são evocados) e também documental. A dupla de atores compartilha com o público suas afetações e preocupações com o que pode o teatro hoje em tempos tão sombrios e fascistas nos quais a dignidade da vida humana corre cada vez mais riscos. Como Teatro do Real, um dos atores vai ler uma mensagem de watsapp enviada para seu grupo familiar, na qual ele conta seus motivos para não votar num candidato que estimula a intolerância, a violência e o desrespeito às minorias sociais. Frente aos perigos e retrocessos que podem advir da vitória desse candidato para a Presidência da República, o que ouvimos reiteradamente é: “isso não é uma metáfora E tal afirmação é pronunciada num espaço teatral que predominantemente é instaurado como um lugar metafórico.

Essa terceira cena, ainda que se apresente como um manifesto necessário e contundente, a mim gerou algumas questões: até quando e até quanto falar de “um nós” pode significar se tratar de um comum e ao mesmo tempo pode escamotear as diferenças, os lugares de exclusão e de privilégio? Volta a imagem da corda: onde isso reúne e onde isso separa? Estamos mais fracos e vulneráveis porque tão divididos? Quem de fato é o nosso inimigo a quem devemos combater? Sim, precisamos dar corpo aos afetos mobilizadores de transformação pois de fato o ódio não é apenas virtual, mas real, carnal, dói na pele. Mas em quais peles? Na minha, na tua, na nossa, na deles e delas, dói igual? Sim, há “um nós” que de fato congrega (por exemplo sermos artistas de teatro e nos solidarizarmos com as lutas dos outros), mas a meu ver, há também uma impossibilidade de sermos esse “um nós”. Nós Mesmos e Nós Outros? Ao convidar pessoas do público para adentrarem a cena e ali se tocarem, se vivificarem e se perceberem como gente-pele, por quê a ausência de corpos negros e transgêneros? Caso isso tivesse acontecido, aí para mim se confirmaria esse apelo de uma comunidade possível. Aí esse movimento que parte de um Zé (Zé Alguém? Zé Ninguém? Zé Povinho? Quais Zé?) abarcaria e abraçaria tantos outros Zés. Sejamos honestos: infelizmente existem pessoas mais consideradas Zé do que outras…. Zé é mais do que um nome que se pretende anônimo, Zé é uma realidade social: tem cara, sexo, cor, classe social e endereço certos e sua pele é agredida cotidianamente.

A última cena da noite foi Encontros e Desencontros com Fátima Bernardes, de Belo Horizonte. Tintas de Almodóvar com tintas de Frida Kahlo. Na cena, artistas do Coletivo Transborda dão lugar e corpo, vez e voz, para que suas mães possam (des)construir não somente o espaço cênico, como os discursos patriarcais e machistas. A cena começa com certa sobriedade, e aos poucos, o que se vê é uma irrupção de caos, desordem, humor e insurgências femininas. Pelo convívio e encontro teatral se estabelece a possibilidade de se desencontrar de Fátima Bernardes e seu programa de entretenimento matinal. Tudo beira o abismo, a destruição (impactante presenciar a quebra de xícaras sobre a mesa posta), a crítica aos bons modos de uma clássica educação feminina submissa, e essas mulheres-mães se revelam artistas potenciais no limiar entre espontaneidade e técnica. São mulheres de luta que não só se divertem com sua capacidade comprovada de encantar e surpreender o público, mas também emocionam ao compartilhar depoimentos dolorosos de vida. No final bradam: “Que comece o matriarcado”. Mas o matriarcado sempre sustentou o mundo. Talvez o que elas defendam seja a substituição do patriarcado pelo matriarcado, esse segundo, capaz de nos curar e governar com mais sabedoria, justiça e menos desigualdade. De qualquer forma são as mulheres, que hoje, mais do que nunca, têm a coragem se posicionar na linha de frente e assim revolucionar e transformar a sociedade.

A estreia do Festival Cenas Curtas contou com as intervenções dos artistas do da Favelinha, de Belo Horizonte, que com seus corpos em festa, trouxeram alegria e vivacidade para os momentos de transição das cenas, abrilhantando intensamente a noite. Acredito na alegria como laço que produz ação política. No conjunto, o que tivemos foi uma explosão de palavras, gritos, revoltas, ritmos, gestos e poéticas “comprimidos há tanto tempo” e em busca de um canal de expressão que não permita que a Grande Corda nos enforque no ato final.

Que venha o segundo dia do Festival Cenas Curtas!

 

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