2017 | O firme soldadinho de chumbo

OFICINÃO ESCOLA 2017: em que pé que tá

 

É este que será notável: ler novamente, e pela primeira vez, o Soldadinho de Chumbo.
Por João Santos

É empolgante, mesmo que arriscado, destrinchar uma obra tão conhecida mundialmente. Texto fundamental de Hans Cristian Andersen, “O Soldadinho de Chumbo” é parte intrínseca do imaginário coletivo ocidental. Quando ousamos propor a encenação dessa fábula, não são apenas as palavras do autor dinamarquês que estão em jogo. São também as palavras que cada espectador ouviu de sua mãe, quando criança, antes de dormir. São todas as milhares de adaptações, os disquinhos e os livros, os desenhos animados e as montagens escolares, são todas as formas através do qual a história já foi contada, e todas as outras através das quais ela foi compreendida. São seus significados diluídos, suprimidos e reinventados pela força do tempo e das interpretações.

Aqui estamos nós. A pouco mais de um mês de nossa estreia. Há ainda um longo caminho a percorrer. O Oficinão, projeto fundamental do Galpão Cine Horto, retornou em 2017 com um caráter artístico e pedagógico. Desde março, atores com diferentes experiências, entre profissionais e ex-alunos dos cursos livres da casa, vem compartilhando o processo do nosso Soldadinho com uma equipe de profissionais que também assumem os postos de professores. Estamos todos aprendendo e ensinando, afinal.

Para recontar essa história foi, primeiro, necessário aprender a ouvi-la. Ouvi-la novamente. Mais uma vez, e pela primeira vez. Penso em John Cage nos propondo a ouvir o silêncio. Penso nele sugerindo olhar para o céu ou para uma garrafa de Coca-Cola. Você também conhece a forma de uma garrafa de Coca-Cola. Você já reparou nela? Para nós todos, também para este dramaturgo, foi necessário escovar os dentes e vestir o pijama, deitar e esperar para ouvir, pela primeira vez, novamente, a fábula de Andersen.

Nada disso que digo significa que tenhamos desejado, em qualquer momento do processo, abstrair toda a herança simbólica que o imaginário sobre este conto poderia nos provocar. Não. Revisitar o “Soldadinho de Chumbo” é tentar extrair, de todas as interpretações, o que é essencial. Mas, isto sim, é também resgatar temas e aspectos que talvez tenham, ao longo dos anos, sido diminuídos. Toda a dimensão trágica, pessimista e cruel que permeia o estilo e a produção de Andersen só nos ficou clara graças a um exercício simples mas que foi extremamente importante para este processo. Foi ouvindo a contação de histórias dos atores que entendemos com grande clareza que este ator, dito infantil, retorna obsessivamente ao tema da morte e, tratando de decapitações, congelamentos e fogueiras, ela, ainda assim, geralmente é a redenção de seus personagens, seu final feliz. Uma perspectiva praticamente excluída do que se entende hoje por uma literatura juvenil.

Retornar a Andersen também nos fez perceber em que pontos esse autor, que ajudou a construir tantas infâncias, deixa de ser base para se revelar herdeiro. “O Soldadinho de Chumbo”, este conto breve e relido singelamente por décadas e décadas carrega, em sua estrutura, uma forte tradição literária que vem desde a Grécia antiga. Para além da clara referência a lenda do “Anel de Polícrates”, o Soldadinho pode ser encarado como uma espécie de Ulysses em miniatura, de brinquedo, navegando pelas mesmas ondas turvas de seu destino, porém, diferente do herói de Homero, com uma odisseia mais motivada pelo acaso do que pela fúria dos deuses (e, também por isso, menos heroico).

Se chegamos ao tema do heroísmo, é hora de sublinhar uma outra característica de Andersen, a meu ver uma das mais belas de sua obra: a óbvia predileção do autor por protagonistas marginais, oprimidos e excluídos. A exclusão, em si, é motivo para um sem fim de fábulas de suas histórias, a começar por aquela que se tornou a mais conhecida de todas, a do patinho feio e desprezado que se revela um majestoso cisne. Os heróis de Andersen são os desencaixados. Pequenos, tímidos, subjugados. Mas que carregam  algum tipo de sensibilidade que os torna notáveis. É assim também nosso soldadinho, firme e valente sobre sua única perninha de chumbo.

Pouco mais de um mês para nossa estreia. No conto de Andersen o Soldadinho de Chumbo não consegue declarar seu amor à Bailarina de Papel. Nós, ao contrário, temos uma data para o encontro crucial: o com a plateia. Enquanto nos preparamos, seguimos reunindo coragem para, na noite da estreia, juntos – atores, equipe e público – formarmos , sob a luz e calor desta fábula, um corpo vivo e único e que é o teatro.

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